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Conversando sobre alguns assuntos
 
 

Informação é fator decisivo na doação de medula óssea
05/03/2010


É o que afirma a biomédica Ierecê Miranda, da Fundação Hemopa, em entrevista ao Banco de Informações da Cultura.

Por Vanessa Moura
Do Banco de Informações da Rede Cultura de Comunicação
Fotos: Elcimar Neves/AGPA e Arquivo Hemopa

Informação e conscientização são alguns dos fatores apontados pela biomédica Ierecê Miranda para o aumento no número de doadores de medula óssea. Responsável pelo Laboratório de Imunogenética da Fundação Hemopa (Centro de Hemoterapia e Hematologia do Pará) concedeu entrevista sobre o assunto ao Banco de Informações da Cultura, que o Portal Cultura publica com exclusividade. A entrevista foi concedida em outubro de 2009. Confira:

O que é a medula óssea?
Ierecê Miranda - A medula óssea é um líquido parecido com o sangue, só que um pouco mais gorduroso, que fica armazenado dentro dos nossos ossos.

Em que casos se aplica o transplante de medula óssea?
Miranda - A medula óssea é a fábrica do sangue e nela nascem todas as células que o compõem. Quando a medula fica comprometida com alguma anormalidade, o sangue também fica comprometido.
Se a parte afetada é a medula, existem algumas doenças em que, quando o tratamento por radioterapia e/ou quimioterapia não é eficaz, o transplante é indicado, de acordo com o grau daquela doença ou da gravidade do paciente. As doenças para as quais o transplante de medula óssea está indicado são: leucemia, anemia aplástica, anemia de Fanconi, anemia falciforme, dentre outras que a acometem.

Qual a principal característica do transplante de medula óssea, que o difere dos demais transplantes?
Miranda - O que difere tal transplante dos de órgãos sólidos é que a medula é um líquido rico em células-tronco e, após a doação, o doador a recupera e pode doá-la novamente. No caso de um órgão sólido, o doador só pode doar uma única vez, já que os órgãos sólidos não se renovam. Diferentemente dos outros órgãos, a medula exige 100% de compatibilidade, ou seja, a identificação entre doador e receptor deve ser idêntica. É como se eu estivesse procurando alguém com a mesma impressão digital que a minha, por isso, há muita dificuldade em encontrar um doador compatível.

Há outras instituições trabalhando junto ao Hemopa nesse campo do transplante de medula óssea?
Miranda - Além do Hemopa, que trabalha diretamente com pacientes que possuem diferentes tipos de anemia, o Hospital Ophyr Loyola faz o tratamento e dá orientação médica aos portadores de leucemia.
O Hospital mantém esse contato conosco porque quando o paciente faz um tratamento no qual não houve eficácia e necessita de transplante de medula, ele é encaminhado ao Hemopa para que se verifique qual sua genética e se há compatibilidade entre seus parentes, ou entre o banco de doadores, para que seja então efetuado o transplante. Devido à exigência da compatibilidade para o transplante de medula, a busca é feita diretamente nos irmãos, filhos de mesmo pai e mãe do paciente e entre os pais. Isso é o que a portaria do Ministério da Saúde indica.
Quando não se encontra a compatibilidade entre os irmãos e os pais, o paciente fica à espera de uma medula não-aparentada e ele é inscrito no Registro de Receptor de Medula (REREME).
O Hemopa também disponibiliza o Registro de Doador de Medula (REDOME), em que todos aqueles que querem ser solidários às pessoas que não tem um doador na família se cadastram e ficam aguardando que um dia possam ser compatíveis com alguns desses pacientes, para que então efetuem a doação de medula óssea.

Como é feito o cadastro do doador voluntário de medula?
Miranda - É necessário ter entre 18 e 55 anos e estar em bom estado de saúde. Diferentemente da doação de sangue, o doador que mora em área endêmica de malária também pode se cadastrar.

O que impede uma pessoa de doar a medula óssea?
Miranda - Inicialmente, a idade. Abaixo de 18 anos o doador não pode se cadastrar, pois, como se trata de uma doação voluntária, o doador deve responder por ele mesmo.
Acima de 55 anos não há cadastro, porque sabemos que nossas células envelhecem junto conosco e como nunca sabemos quando haverá compatibilidade entre doador e receptor, já que isso pode demorar muitos anos ou nem chegar a acontecer, um doador que se cadastra com uma idade avançada pode vir a ser compatível em uma época em que não possa mais fazer a doação, por isso que há esse limite de idade.
Também não podem ser doadores os que fazem uso de insulina, os que possuem doença congênita e os que já apresentaram algum tipo de câncer.

Qual a estratégia para conseguir os doadores?
Miranda - A melhor forma de captar doadores é através da informação. A pessoa deve saber o que é a medula óssea, quem precisa, como fazer para doar e o que vai acontecer quando chegar o dia em que ela for compatível.

A que você atribui o aumento considerável de doadores?
Miranda - Em primeiro lugar, à conscientização. A população brasileira está sendo informada sobre a medula óssea e sobre quem precisa. O que temos observado é que quando as pessoas sabem do que se trata são solidárias e procuram ajudar aos outros.
O outro fator foi o avanço da tecnologia. Como a identificação genética é um exame demorado, os geneticistas avançaram em tecnologias e desenvolveram metodologias através das quais podemos fazer esse exame com maior rapidez.

Quais são os procedimentos que um doador voluntário deve seguir?
Miranda - Primeiramente, ele deve se cadastrar e coletar 5ml de sangue para que possa ser identificado geneticamente. Todas as informações ficam retidas no REDOME e o doador fica aguardando o dia em que for compatível com alguém. O doador só precisa querer ser solidário.
Quando chegar o dia em que ele for compatível, tanto o Hemopa quanto o INCA (Instituto Nacional de Câncer) irão entrar em contato com ele. A partir daí, o doador comparece ao Hemopa para fazer uma outra coleta de sangue para exame adicional e, permanecendo a compatibilidade, ele será contatado diretamente pelo INCA para que sejam feitos exames confirmatórios para saber se a pessoa está bem de saúde e, ainda, para saber se realmente a pessoa quer fazer a doação. Se aceitar, será encaminhada até o centro mais próximo, ou para onde o paciente foi indicado para fazer a coleta da medula. A medula pode ser retirada de duas maneiras. A primeira é através da própria veia, como se fosse uma doação de sangue. Nesse método, o doador toma um medicamento que estimula as células a migrarem para as veias e, então, é feita a coleta. Tais células serão infundidas no receptor do mesmo modo, como um tipo de doação de sangue.
A outra forma é a punção direta no osso, através de uma seringa e uma agulha. Não é um procedimento cirúrgico, por não haver corte, mas há necessidade de anestesia. O doador pode então optar por uma anestesia geral ou peridural e ficará no hospital por 24 horas, em observação, sendo depois liberado. Em poucas semanas ele poderá fazer uma nova doação.

Na Região Norte há um grupo preparado para as pesquisas e também para lidar diretamente com o transplante de medula óssea?
Miranda - Aqui no Norte ainda não há um centro transplantador de medula óssea. No Estado do Pará, por enquanto, só fazemos o cadastro do doador voluntário de medula e o identificamos geneticamente. Todos os dados ficam concentrados no Instituto do Câncer (INCA), que fica no Rio de Janeiro, à disposição do país.
Todo o serviço de transplante só acontece com o suporte dos exames de histocompatibilidade, que são realizados em laboratório, com pessoal capacitado e qualificado, em que todas as metodologias tem como alvo o HLA (Antígeno Leucocitário Humano), uma molécula do sistema imunológico envolvida na rejeição do enxerto.
No final do ano 2000, foi implantado o laboratório de imunogenética para dar suporte aos transplantes aqui no Hemopa, com a intenção de atender a demanda de transplante de rim, para pacientes renais crônicos que aqui existiam. Mas, pela própria especificidade do laboratório, houve a necessidade também de atender os pacientes candidatos ao transplante de medula óssea, apesar de ainda não existir um centro transplantador em Belém. Quando verificamos a compatibilidade, o paciente é então encaminhado para outro estado onde exista um centro transplantador. O Centro mais próximo fica em Recife, mas existem 45 centros transplantadores no Brasil, com maior concentração no Sudeste. A Região Norte ainda não tem, porém, acredito que daqui a três anos já poderemos implantar um centro transplantador no Pará.
A implantação de um centro desse porte requer muito treinamento, capacitação, espaço físico e uma série de situações que demandam tempo. Mediante o número de pacientes existente aqui e já existindo um laboratório de imunogenética qualificado para dar suporte a esse tipo de transplante, e ainda um hospital que atende pacientes acometidos com alguma doença relacionada ao transplante de medula óssea, como o Ophyr Loyola, se pensou na parceria, de modo a não mais encaminhar pacientes para fora do Estado e sim fazer todo o serviço aqui no Pará.
Em 2008, fizemos uma visita ao INCA, ao centro de transplante de medula óssea. Em seguida, foi feito um projeto, que foi apresentado para a Secretaria de Saúde. O projeto foi aprovado e já está em andamento. Brevemente teremos um centro transplantador aqui no Estado.

Para quando está prevista a inauguração do primeiro Banco de Sangue de Cordão Umbilical e Placentário da Região Norte?
Miranda - O Banco de Cordão Umbilical é uma outra fonte de células-tronco para fins de terapia e de transplante de medula óssea. Hoje, já existe o cadastro de doador de medula, portanto, a outra fonte para fim terapêutico desses tipos de doenças, que requerem o transplante de medula, são as células-tronco do cordão umbilical.
Acredito que em março de 2010, aqui na Fundação Hemopa, o Banco já estará funcionando e, a partir desse momento, poderemos fazer o acompanhamento e a coleta desse sangue rico em células-tronco.

Quantos atendimentos o laboratório fará por mês?
Miranda - Como estaremos começando, nossa meta é coletarmos amostras de 100 cordões umbilicais por mês. Consequentemente, serão feitas 100 identificações genéticas desses cordões mensalmente que, então, ficarão armazenadas no Banco de Cordão Umbilical e Placentário.

Como o laboratório vai ajudar o avanço da saúde aqui no Estado?
Miranda - Com o banco e o centro transplantador, com certeza ganharemos tempo em salvar vidas, desde que se encontre um doador compatível. Nós também aumentaremos o número de doadores do estado, visto que temos uma genética própria. No Pará temos uma contribuição indígena muito maior do que em outros lugares do Brasil, por isso precisamos aumentar o número de doadores, para que tenhamos representatividade genética e para que assim nossos pacientes possam encontrar doadores com maior facilidade.

Fonte: Portal Cultura - Curitiba/PR